Branqueamento de corais e salinização de estuários revelam impactos da crise climática na costa brasileira
ClimaRecifes de CoraisVida MarinhaPesquisador colaborador da rede INPO alerta para a velocidade das transformações e destaca a importância do monitoramento de longo prazo
O branqueamento de corais – um sinal de estresse severo no qual o animal expele as algas simbiontes (zooxantelas) que lhes dão cor e energia – deixaram de ser eventos esporádicos e tornaram-se mais frequentes e intensos. Monitoramentos padronizados realizados em mais de 18 pontos da costa brasileira, do Ceará a Santa Catarina, revelaram que o verão de 2023/2024 foi particularmente devastador para algumas regiões. E, em julho deste ano, a temperatura da superfície dos oceanos atingiu um novo recorde histórico, de acordo com o Copernicus.
Para Francisco Barros, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e colaborador da rede INPO, a crise climática atual não se define apenas pelo aumento das temperaturas, mas pela velocidade das transformações. “Não é apenas a questão da mudança de temperatura, mas a rapidez com que está acontecendo essa mudança”, alerta.
O fenômeno ocorre porque, quando o calor aumenta demais, as algas que vivem dentro dos tecidos dos corais são expulsas para a coluna d’água. Sem essas algas, o coral fica translúcido, revelando seu esqueleto branco de carbonato de cálcio. O pesquisador explica que uma das maiores preocupações hoje é a chamada “mudança de fase”. “Na Baía de Todos os Santos, observou-se, por exemplo, que recifes antes dominados por corais construtores, responsáveis por criar a estrutura física do ambiente, foram substituídos, após ondas de calor, por corais moles ou algas. O impacto é estrutural e, muitas vezes, irreversível. Cada vez mais vai ficando difícil retornar à condição original de um recife saudável”, explica.
Embora o coral tenha a capacidade de se recuperar, caso a temperatura baixe a tempo, Barros ressalta que, se a onda de calor for muito intensa ou prolongada, os animais não conseguem recuperar as algas e podem acabar morrendo.
Salinização dos estuários
A crise climática avança também para os estuários, ecossistemas que são uma área de transição, onde a água doce dos rios se encontra com a água salgada do mar. Os estuários têm sofrido com o avanço da “cunha salina”, um processo em que a água do mar, mais densa, penetra rio adentro pelo fundo do estuário. Esse avanço é impulsionado pelo aumento do nível do mar e pela redução das chuvas, que diminui a força da água doce para “empurrar” o sal de volta. Muitos estuários também já estão comprimidos por barreiras artificiais e cidades, impedindo uma adaptação natural do ecossistema.
Especialista em invertebrados bentônicos (organismos que vivem associados ao fundo), Barros monitora esses sistemas na Baía de Todos os Santos há 20 anos e destaca que a salinização pode causar a perda de funções ecológicas vitais, como a oxigenação dos sedimentos marinhos realizada por poliquetas (minhocas marinhas). Elas realizam a bioturbação, um processo de revolvimento do solo marinho; “É análogo a aeração do terreno para ecossistemas terrestres. As minhocas marinhas têm uma função muito similar”, detalha o pesquisador.
Um estudo conduzido pelo grupo do pesquisador analisou sete espécies de poliquetas, cruzando dados de experimentos realizados em laboratório com mapas de densidade das populações, e revelou que elas são capazes de bioturbar o volume equivalente a duas piscinas olímpicas e meia em apenas quatro dias. No mesmo período, foi estimado que essas espécies consumiram 23 toneladas de matéria orgânica, reciclando a matéria orgânica de um sistema estuarino. A salinização tende a redistribuir essas espécies bentônicas dentro desse gradiente de salinidade, alterando os padrões de oxigenação e processamento de matéria orgânica, afetando a base da cadeia alimentar que inclusive sustenta organismos que são utilizados por povos tradicionais e de interesse comercial, como crustáceos, peixes e mariscos.
Ecossistemas interligados
De acordo com Barros, a relação de dependência entre ambientes costeiros é estreita e, por isso, o uso indevido do solo nas bacias hidrográficas gera impactos diretos não somente nos estuários como também nos recifes costeiros, ao aumentar o material em suspensão e a turbidez. Além desse efeito físico, há uma conexão biológica vital: diversas espécies marinhas que utilizam as estruturas dos corais como abrigo, utilizam os estuários para se reproduzir ou dependem dos recursos ali gerados. O pesquisador explica que estudos ecológicos comprovam que esses sistemas são indissociáveis. “Existe uma ligação clara na ecologia desses sistemas, que dependem um dos outros. A água conecta a vida e os serviços ecossistêmicos.”
Já a degradação dos recifes de corais atinge diretamente a segurança das populações costeiras. Sem a barreira física dos recifes, a linha de costa perde sua proteção natural contra grandes tempestades e a subida do nível do mar. “A perda de recifes pode ocasionar alterações na linha de costa, aumentando a erosão costeira”, o que resulta em prejuízos drásticos para a infraestrutura urbana e comunidades locais, afirma.
A gestão desse cenário é agravada ainda por uma lacuna nas estatísticas brasileiras sobre a extração de recursos marinhos. Para o pesquisador, que aponta que não há dados, por exemplo, sobre o quanto o país pesca desde 2008, a situação é comparável a uma agricultura que desconhece sua própria safra: “Nós não sabemos ao certo o que está sendo extraído do mar, não sabemos o quanto se produz. Como manejar uma coisa que a gente não tem informação?”, questiona.
Para Barros, o fortalecimento de programas de monitoramento de longo prazo, como os projetos PELD (Programa Ecológico de Longa Duração), por exemplo, é fundamental. “Sem o dado pretérito gerado por esses programas, é impossível saber o quanto exatamente o oceano já mudou e o quanto ainda pode suportar”, enfatiza o pesquisador colaborador da rede INPO.